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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

DIÁRIO — Fechar o livro com uma flor no coração

Ao final do ano passado de 2025 fui acometido de um surto criativo. É bem verdade que o estimulei durante o ano, crente que sou em uma das leis da dialética, não me lembro qual e segundo a qual acúmulos de quantidade geram saltos de qualidade — noutras palavras, li, estudei, anotei, pesquisei feito um possesso, crente em que isso, uma hora ou outra, produziria um curto-circuito geral, que alguma consequência teria. Como em time que está ganhando não se mexe, este ano de 2026 repito a dose, com um pouco mais de consciência e expectativa.

Agora, quanto a este ano, não sei o que está sendo e o que será a seu final. Gostaria de, como no ano passado, escrever algo forte e abundante. A exemplo de 2025, estou estudando os nossos grandes narradores, e só saberei o que escrever, se escrever mesmo, ao final do ano letivo, quando somem do horizonte as metas escolares.

Gostaria, mesmo, de produzir algo bem-humorado, porém não me preocupo muito com isso. Tenho lido bastante e, caso não haja nenhum evento psíquico aziago, devo lascar as pontas dos dedos de tanto digitar.

De todo modo, talvez esboce algo, para adiantar não exatamente o roteiro ou algo parecido, mas para ir adubando a grama em que meus neurônios vão pastar durante as férias escolares.

Quanto a esse particular, o humor, no entanto, tenho claro, será positivo; tanto quanto possível, despido de ironia, puxando para o inocente e ingênuo. Busco um texto fluido, agradável, divertido, porém com certo nível de complexidade, nada muito “críptico”, ao molho de eventuais jogos de linguagem, sem resvalar para a prosa poética, embora com pitadas de prosódia doce e alguma pimenta de segundas intenções.

Acho que evitarei caricatura.

Mentira, as empregarei — porque é impossível deixá-las de fora de comédias, tanto mais se forem longas —, mas despidas do azedo, que tantas vezes veste a careta na cara do leitor; e do sal excessivo — que comida carregada no sal é para bêbados, e meu texto será só para pessoas sóbrias e no perfeito equilíbrio do numeral 4.

Se eu conseguisse fazer o leitor se dobrar de rir, seria bem-sucedido. Estou farto dessa literatura que circula hoje, bombada por influencers, macambúzia, lamurienta, chata nos trinques, no fundo, autocomiserativa, sob o disfarce de busca de autoconhecimento, autoconsciência, autocontrole (sempre “auto”, jamais “alter”), eternamente com o dedo apontado para os defeitos do mundo e dos outros, e os olhos voltados para as profundas do ego — em duas palavras: narcisismo patológico, travestido de bom-mocismo dodói.

Então acho que meu planejamento para trabalho de escritor de final de ano de 2026 e início do próximo, 2027, é este: produzir com alegria, humor e abundantemente uma ficção que faça o leitor se borrar de rir muitas vezes e, ao término da leitura, fechar o livro com uma flor no coração.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.

sábado, 10 de outubro de 2020

CARAÇA: Caricaturas do Grandioso Fá - Sonetos Picarescos

CARAÇA é um volume de poemas, porém ninguém se engane: nele, mesmo quando o assunto é amor, há o espeto de uma piada embutido no lirismo, a dizer: "Quem quer o amor, quer o espeto". Maus juízes, maus políticos, maus patrões, maus amigos, maus amores... ahhhh, vocês vão sentir o chicote dessa língua. No formato exclusivo e-book ilustrado, com 262 páginas divididas em 11 partes, o livro se diverte com as pobrezas humanas e explora as riquezas poéticas mas também humorísticas da língua portuguesa, em versos líricos e satíricos, com especial carinho dedicado a maus amigos, políticos e juízes.

E-book ilustrado, exemplares personalizados e numerados, em PDF, para todos os aplicativos e dispositivos. 1 ed. São Paulo: Editora Serra Azul, 2020. R$30,00. Receba em seu e-mail.

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Da frase clara, doce e elegante (à moda Bocage), à barroca, humorada e desbocada (à moda Gregório de Matos), do encanto ao deboche (que os dois praticaram sem poupar o calão), num balanço pendular cheio de riscos não só de linguagem, o leitor é embalado no trapézio da escrita, gozando o friozinho que o despencar do alto das palavras – sem rede de proteção embaixo – dá na barriga.


Ora trapezista, ora ilusionista;  ora palhaço, ora domador na jaula dos leões; ora atirador de facas, ora engolidor de fogo, ora mulher barbada o Grandioso Fá puxa o leitor ao centro desse picadeiro simbólico e o converte em cúmplice de suas 241 caricaturas – uma para cada soneto.


As ilustrações, extraídas a baralhos inclusive de Tarô, sinalizam a vocação farsesca, arlequinal e circense do livro, que não despreza nenhuma palavra do idioma, nem sequer as deformadas, sujas, rotas e andrajosas, como aqueles paupérrimos clowns que tiravam o sustento de improvisos patéticos nas feiras medievais.

A seguir, algumas caricaturas do Grandioso Fá a título de ingresso grátis:









Caraça: Caricaturas do Grandioso Fá - Sonetos Picarescos. E-book ilustrado, exemplares personalizados e numerados, legível em todos os aplicativos e dispositivos, São Paulo, Editora Serra Azul, 2020 - R$30,00.

O Grandioso Fá é professor, pesquisador e escritor em diversas editoras. Entre seus títulos estão O atirador de facas e Dois poetas paulistanos (Plêiade); o ciclo de romances urbanos Era uma vez no meu bairro, O jovem Mandela e O jovem Malcolm X (Nova Alexandria), O espelho de Machado de Assis em HQ e  A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour em HQ, tradução do francês e adaptação do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).