quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CRÔNICA — Não me invejem: trabalhem...

 

No ano que vem, este blog completará vinte anos. Porém em um ano muita coisa acontece.

Aliás, neste exato instante muitos fatos corriqueiros ou surpreendentes estão acontecendo, de maneira que o correto é, isto sim, comemorar estes dezenove anos de publicações, em que mais de 4 milhões e 780 mil acessos foram registrados por aqui.

Não é todo dia que um blog pessoal de literatura, educação e voltado ainda ao mundo do livro atinge essa marca. Quando sonhei virar escritor, lá pelo fim da adolescência, pus fé, e dei uma banana para quem se riu dos meus poemas de xerox, em cartazes de papel pardo e em carimbo de chapa usada de raio X, impressos com spray nos muros por aí.

Se não fiquei rico com meus textos, ao menos não posso me queixar de que não fui lido e de que não ganhei algum dinheirinho honesto.

Fui lido e estou ainda sendo, seja em papel, nos livros físicos que diversas editoras publicaram, seja em formato digital, tipo e-book, seja ainda na blogosfera, na youtubesfera, na instagramesfera ou na tiktokesfera, onde pratico uns vídeos de leituras mal ajambradas, mal gravadas e mal faladas —  que, no entanto, de vez em quando colam, melhor que meus primeiros poemas-cartaz, que iam para as paredes com cola de farinha de trigo, água e soda cáustica, mas que se desmilinguíam na primeira chuva.

Porém, não me invejem: trabalhem... por dinheiro — pois, nesse quesito, acho que me distraí.

E como diz o Macaco Tião: kkkkkkk

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Pra cima de moá, não, João!

João Luiz Marques, escritor.
Emprestar referências da vida real para compor ficção não chega a ser novidade, e alguns clowns medievais, conta a lenda, perderam mesmo a cabeça, literalmente, ao exagerarem na caricatura em que um rei ou nobre se sentiu identificado.

João Marques pode ficar tranquilo com sua cabeça em cima do pescoço, pois alguns personagens aos quais ele deu vida em seu Os caçadores do livro encantado refletem-se com amizade nas pessoas da vida real nas quais ele se inspirou.

Noutras palavras, ninguém que se sentir identificado lhe cobrará satisfações, seja em termos de corda, guilhotina ou outros meios mais modernos.

Em seu elenco de personagens desse livro, reconheci três: Plínio, Touchê e João Gabriel. Desses, convivi com dois, Plínio (Mesquita de Camargo), amigo antigo, poeta e escritor, e João Gabriel, diretor do sindicato dos Bibliotecários, que conheci nas lutas pela democratização do mundo do livro.

O Touchê, vulgo Antônio Carlos Lucena, conheci de livro, Jujubas essenciais, e de fama, quando, militante do cineclube Bixiga, na década de 1980, rodei pelas mesmas ruas em que ele afixou seus poemas em postes.


O livro do João Marques é para os dias de hoje, mas ninguém se engane com artifícios, mumunhas, malandragens e contrabandos literários de que ele se valeu sub-repticiamente para despertar em adolescentes atuais os sentimentos de amor pelo livro, de jovens de outros tempos.

O protagonista Le, em busca de sua história, arrasta seus amigos por um enredo que ecoa os anos 1970 e 1980, com sua poesia marginal e seus autores líricos, irônicos e humorados, com um pé na revolução e outro no sarcasmo.

O João Marques é um esperto, pois em uma trama aparentemente inocente, faz desfilar ante os olhos do leitor adolescente dos anos 2020 uma trupe para lá de suspeita — para as forças da lei do final da ditadura militar: Ana Cristina César, Paulo Leminski, Vera Pedrosa, Ulisses Tavares, Chacal, Cacaso.

Quem tiver esse livro inocente em mãos, não se engane, é cupincha, ou no mínimo suspeito ou "inocente útil", do lema da época, lapidado por Hélio Oiticica: “Seja Marginal, seja herói.”

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).

domingo, 9 de novembro de 2025

Viva o povo brasileiro — João Ubaldo Ribeiro


Mas, vejamos bem, que será aquilo que  chamamos de povo? Seguramente não é essa massa rude, de iletrados, enfermiços, encarquilhados, impaludados, mestiços e negros. A isso não se pode chamar um povo, não era isso o que mostraríamos a um estrangeiro como exemplo do nosso povo. O nosso povo é um de nós, ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é cultura, é civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebotalho dessa mesma nacionalidade. Mesmo depuradas, como prevejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro, eis que esse povo será representado pela classe dirigente, única que verdadeiramente faz jus a foros de civilização e cultura nos moldes superiores europeus — pois quem somos nós senão europeus transplantados?

*   *   *

O trecho acima reproduz a fala de Amleto Ferreira, personagem do romance Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Amleto enriqueceu roubando e desviando mercadorias do barão Perilo Ambrósio, morto envenenado por seus próprios escravos, por ter assassinado a sangue frio um deles e cortado a língua de outro, para que este não revelasse a farsa que o tornaria "herói" da Independência e barão.

Amleto Ferreira é filho bastardo de uma mulher negra, à qual renega e trata como ex-criada de sua família. Mestiço, veste sempre calças longas e camisas de gola alta com punhos longos para evitar que o sol escureça sua pele. No rosto e na costa das mãos, aplica pó-de-arroz, e à noite dorme sempre com uma touca lambuzada de babosa para amaciar os cabelos, que mantém esticado para trás a poder sabe-se lá de que pomada.

Assim como o falso herói da Independência, a quem roubou a fortuna durante a vida —  e ainda mais após a morte, deixando os herdeiros na pobreza —, destila preconceito e racismo, como forma de expurgar sua própria origem, não só a africana, mas também a portuguesa, para tanto subornando membros da igreja, que fraudam sua certidão de nascimento e acrescentam a ela um sobrenome inglês. 

O desprezo que nutre pelos negros, de quem descende diretamente pela parte de mãe, ele estende a todas as classes trabalhadoras, como se lê no trecho destacado. 

O livro é de 1984, prêmio Jabuti de 1985, quando o país se encontrava em plena campanha das Diretas Já! pelo fim da ditatura militar. A associação entre as classes dominantes do período colonial brasileiro e as do Brasil de meados de 1980 é por vezes direta, com falas de personagens  decalcadas do que circulava em conversas privadas, na imprensa ou em papos de botequim — os dois últimos frequentadíssimos pelo autor, jornalista de longa data e assumidamente partidário da boa cachaça servida nos bares de sua ilha de  Itaparica.

Nesse período, setores das classes dominantes e mesmo parte dos trabalhadores reproduziam o que os militares diziam em seus discursos cabotinos: "O povo não está preparado para a democracia", assim como Amleto dizia sobre a abolição: "os negros não estão preparados para ela".

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).