quinta-feira, 10 de setembro de 2026

RESENHA — O elevador de Adriano nasceu do asco e da raiva, mas é um livro santo

Em breve terei em mãos alguns exemplares de meu romance mais recente, escrito de uma só vez, entre os dias 2 e 25 de dezembro do ano passado, 2025. Eu tinha parada no estômago a chacina promovida pela PM do Rio de Janeiro, em 28 de agosto desse mesmo ano, nos complexos da Penha e do Alemão, a mando do então governador Cláudio Castro, cassado no início deste 2026 por corrupção. Porém eu não sabia o que fazer com essa sensação, misto de náusea e raiva.

Após o encerramento do ano letivo (leciono na Rocinha), não sei o que me deu. Ataquei o notebook em ritmo prestissimo e desandei a digitar no teclado dez, doze, catorze, dezesseis horas ou mais por dia, só me levantando para as necessidades do corpo, as quais não vêm aqui ao caso, sem qualquer planejamento ou roteiro prévio, que, a rigor, foi se constituindo à medida que o texto avançava.

As personagens foram surgindo ao sabor dos episódios. Mesmo o narrador, que não assume protagonismo, só saiu da sombra para mim após um belo tanto de parágrafos redigidos. Elas, as personagens, me vieram com suas identidades "prontas e acabadas" e, porque foram ecoando pessoas reais, me vi lançado a pesquisas exaustivas na Internet e em minha mixa biblioteca, para melhor talhar seus perfis, almas  das que as têm —  e falta delas porque, é triste reconhecer, neste livro há várias nessa condição, embora sombras pálidas dos referentes a que aludem, feliz ou infelizmente.

Após a redação, revisei bastante a linguagem, a cata de erros de digitação e descuidos do português  culto ou popular, formal ou informal, padrão ou dialetal, chic ou boca suja , mas o roteiro  cuja elaboração, que houve, não nego, mas que andou sempre poucas linhas à frente do texto, sem eu mesmo saber qual o desfecho , os fatos narrativos, as personagens, estes, não sofreram nenhuma alteração.

Não sei se nesta primeira edição ainda não se encontrarão algumas gralhas, essas farpas sempre prestes a espetar os olhos do autor, do editor e, se não for distraído, também do leitor. Oxalá, não.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

CRÔNICAS CARIOCAS — Louco sob a chuva

 

Outro dia, tomava um chope num estabelecimento do largo do Machado amplamente invejado pela Receita Federal e agora, segundo notícias recentes, também pela Saúde Pública. Bebia só, por princípio, mas também porque era um final de tarde de uma sexta-feira escaldante de um final de agosto, mês de má fama, cujo término merece, por isso mesmo, ser comemorado em silêncio compungido.

A garçonete ficou intrigada por ser canhota e precisar fazer malabarismos com o caderno, na época de escola, para escrever, enquanto eu deitava letras redondas alucinadamente no papel, como um possesso, mantendo a folha alinhada com as margens da mesa e a escrita sem a menor inclinação.

          — Não sou canhoto, sou destro. Aprendi a escrever com a esquerda para manter livre a direita: o copo de chope, sabe...

Ela sorriu, e eu paguei na mesma moeda.

          — Ah, vá! — ela duvidou, se divertindo com a anedota.

Passei, então, a caneta para a mão direita, o chope para a esquerda, e continuei o exercício de caligrafia, pois disso era que se tratava, e ela se afastou com horror, sem voltar as costas. Pela leitura labial, vi que ela pedia ao colega para que ele passasse a me atender, porque eu não era muito certo das ideias.

Semanas depois, num final de domingo chuvoso de setembro, em outro estabelecimento da área de bares e restaurantes, agora do Catete, porém de reputação equivalente à do anterior, caprichava eu no exercício de caligrafia para a mão esquerda, em meio a uma partida de futebol na TV, quando me cutuca o braço um garçom de baixa estatura, porém certamente saído de uma academia de musculação, haja vista seus bíceps, tríceps e torácicos de titã. Confiando em sua intuição, ele, cujo nome grego preservo em respeito ao segredo de fonte — melhor seria que fosse Hércules, mas não era — tinha um livro em mente e não sabia como começar, quem sabe eu pudesse ajudar...

Pensei rápido, enquanto o Flamengo perdia mais um gol, debaixo de um dilúvio que Deus mandava e ondas de xingamentos dos ocupantes das outras mesas: vou atender esse rapaz, por três motivos:

Primeiro: tinha músculos demais para eu arriscar uma negativa — a gente tem que ser previdente; segundo: não é todo dia que um garçom com esse shape quer desenvolver os tecidos do sistema nervoso central — a gente tem que incentivar o mens sana in corpore sano; terceiro: ele não me achou pancada — a gente tem que dar valor a quem se reconhece em nossas loucuras.

Passei-lhe o contato, mas não esperei que o jogo terminasse, paguei a conta e enfrentei o dilúvio com o caderno protegido pelo casaco.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

GRANDE SERTÃO: VEREDAS — Tudo em um romance é o próprio autor


Riobaldo, em Grande sertão: veredas, é uma projeção das dúvidas metafísicas do próprio autor, senão vejamos.

No papel de narrador, Riobaldo submete a exame questões basilares da filosofia idealista, tais como:

  • Deus, enquanto criador de tudo e enquanto invenção humana;
  • o mal, enquanto entidade sobrenatural, em si (portanto no singular e em inicial maiúscula: o Mal); ou enquanto resultante de conflitos internos e externos do indivíduo (no primeiro caso psíquicos, no segundo, sociais — em ambos, no plural e com inicial minúscula: os males);
  • ou ainda o papel da dúvida (princípio da incerteza) e da fé (convicção científica ou ideológica) na produção do saber, logo, da consciência.

Não arrisca muito quem considera Riobaldo o principal (porque há outros) alter-ego de Guimarães Rosa nesse romance, que é, a um só tempo, sua obra-prima e seu testamento literário.

Se concordarmos com Jorge Luís Borges, quanto a que a literatura é o sonho acordado do escritor, e se concordarmos ainda com Freud, para quem tudo no sonho é o próprio sonhador, não há como escapar da conclusão necessária daí decorrente, de que, além do alter-ego Riobaldo, no romance em foco todas as demais representações, não apenas as humanas, são emanações conscientes ou inconscientes do autor, cuja ampla e profunda erudição não elidem o fato de seu "sonho acordado" ter sido expresso, palavra a palavra, em um idioma resultante de processos linguísticos multimilenares, que se têm no latim sua origem conhecida mais remota, ecoam idiomas perdidos na origem dos tempos.

Noutras palavras, Guimarães Rosa, em posse integral de "engenho e arte", como qualquer outro falante materno do português, não é senhor exclusivo de todos os sentidos possíveis que seu texto, prodigioso, enseja.

Ao traduzir seu "sonho acordado" em língua portuguesa, o autor empregou signos e processos comuns à comunidade linguística do idioma, signos e processos que, se projetam intenções e mesmo "desintenções" do autor, convocam os repertórios linguístico e cultural dos leitores, cujas referências, constituição e mesmo dimensões são outras.

Por isso, se tudo em Grande sertão: veredas é o próprio autor, inclusive o judas Hermógenes, o leitor é livre para achar o que quiser dessas projeções — liberdade que o idioma comum faculta —, mesmo levando em consideração as não poucas arapucas de linguagem engendradas pelo autor, de que nenhum parágrafo do texto está isento, e nas quais causa mais prazer cair do que evitar.

Porém, nem só de "alter-egos" está constituído esse sertão de sonho, em que as inverossimilhanças, pelo exagero barroco, penetram os domínios do mágico: o romance é prenhe de verdadeiros "alter-ids", em que mesmo perversões abomináveis são descritas com minúcias, afinal, no reino do sonho, a moral é que não faz nenhum sentido — e o episódio de maldade algo demente de Aleixo, "que mata só para ver alguém fazer careta", não repousa aqui em "inocente solitude".

"Ah, vá! Agora Guimarães Rosa saiu do armário e virou o 'S' da antiga sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), leitores machos-alfa dirão da sexualidade ambígua do narrador, o tempo todo prestes a atirar-se nos braços de outro jagunço (Diadorim), "salvo" apenas por seu próprio preconceito. Não dá para afirmar tanto, mas que Riobaldo tinha a libido atiçada pelo jagunço Diadorim muito antes de o descobrir a um só tempo morto e mulher, ah, quem leu o romance com atenção mediana reconhece com os pés nas costas.

Quanto aos "alter-superegos" do autor no romance, basta dizer que todos, exasperados por instaurar sua própria ordem, se deram mal, incluso o bando de Riobaldo, que desbarata a horda dos hermógenes, uma espécie de superego do mal, mas não sobrevive a ela para impor a sua ou uma outra ordem qualquer, uma vez que a vitória militar se esvazia de sentido com a morte de Diadorim, vítima mais da moral preconceituosa vigente (de que Riobaldo, para sua desgraça, era partidário) do que da faca de Hermógenes.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).