segunda-feira, 5 de outubro de 2026

POLÍTICA — Analistas de esquerda, parem de mistificação. Ou...

Pão ou  pães, é questão de opiniães. Guimarães Rosa

Comentaristas de sites democráticos estão em pânico, desesperados em avaliações catastrofistas sobre a comunicação da campanha a presidente de Lula, atribuindo a ela a avalanche fascista deste primeiro turno das eleições para Senado, Câmara e Governos estaduais.

Porém estão redondamente enganados, principalmente por, ao hipervalorizarem as mídias, setor no qual militam, atribuírem ao discurso sobre a realidade predominância sobre a própria realidade, cujo buraco é, feliz ou infelizmente, mais embaixo.

A sólida e abundante votação do PL e demais partidos fascistas não encontra explicação nas mídias tradicionais ou nas redes sociais hipervalorizadas. Muito pelo contrário, foi construída na base da sociedade por milhões, sim, milhões de candidatos a deputado federal e estadual e cabos eleitorais enraizados na microgeografia do país, em CONTATO DIRETO COM O ELEITOR, pessoa a pessoa, vizinho a vizinho, pastor a fiel, líder comunitário sequestrado pelas ideias reacionárias a membro da comunidade, sem mediação.

O tsunami de votos em deputados, senadores e governadores fascistas não veio de cima para baixo, em sacadas de comunicadores experts ou de infulencers "geniais", antes pelo contrário, veio de baixo para cima, não nasceu em suas redes sociais, mas desaguou nelas, que conferiu a ele visibilidade o ampliou, retroalimentando-o na reta final do primeiro turno. Ele (esse tsunami fascista) é a expressão da amarração político-eleitoral concreta NA BASE DA SOCIEDADE.

É lá que devemos ir, não à caça dos algoritmos viciados de Zuckerberg,  Musk e Google, de sacadas de marketeiros ou passes de mágica de influencers, bons de repercutir, mas ruins para alterar correlações de forças sociais enraizadas na base da sociedade.

Parem de ilusão, se não "amassar barro" no trabalho de base, JÁ, os trabalhadores seguirão reféns da lábia fascista, que circula boca a boca e, quando chega às redes sociais, já é legião.

A diferença entre Lula e o candidato fascista no primeiro turno ficou inferior a dois por cento (1,87%). Lula tem uma penetração superlativa nas bases da sociedade. Então, há como reverter essa diferença NA BASE DA SOCIEDADE, porém, falando boca a boca, diretamente, olho no olho do vizinho, do amigo, do parente que ainda não foi picado pela mosca fascista, sem intermediação de algoritmos batizados com o etanol do ódio.

São 33.428.584 ausências no primeiro turno. Taí o lugar onde buscar apoio para derrotar o fascismo. Pelo amor à verdade: parem de mistificação. Nosso trabalho é mais duro, mas possível: a busca de diálogo direto e franco com o nosso entorno (somos também mais que milhões), não de sacadas de comunicação, que não resistem a uma mentirinha ou fake news dos fascistas, esses doutores em traição, ou de algoritmos manipulados pelas mãos nada invisíveis das big techs e de Trump.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ESTUDO DE PERSONAGEM — Racionalização

Meu irmão Diógenes era um baita personagem,
em termos distintos do que vai aí embaixo...
Quando se está envolvido em uma situação delicada, o equilíbrio emocional e a clareza das ideias, tão desejadas no dia a dia, são ainda mais necessários. Sob esse aspecto, não se pode ser condescendente com episódios, eventos ou figuras que os ponham em risco, pois as consequências ficam entre o indesejável e o desastroso.

Uma situação delicada impõe domínio completo de habilidades cognitivas e assunção de graves responsabilidades, envolvidas tantas vezes na administração de patrimônios próprios e de terceiros, e ainda mais na preservação da própria vida, o que tem como decorrência a obrigatoriedade de lucidez na tomada de decisões e no desenvolvimento de ações, muitas das quais relativas a atividades prosaicas, mas sem as quais pessoas e instituições entram na mira.

Não há saída a quem esteja no "olho do furacão", a não ser rejeitar fortemente elementos desestabilizadores, sejam eles fatos, coisas e mesmo pessoas. A energia gasta, na retomada do eixo emocional e na recuperação do tempo perdido inutilmente, faltará miseravelmente nos momentos decisivos, que, mesmo quando atendidos nos melhores cenários, não têm garantia de sucesso.

Por isso, fechar-se a fatos, coisas e mesmo pessoas desequilibrantes não deve vir  acompanhado de sentimento de culpa, antes pelo contrário: deve promover uma agradável sensação de alívio, como quando escapamos de um desastre.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.