Ao final do ano passado de 2025 fui acometido de um surto
criativo. É bem verdade que o estimulei durante o ano, crente que sou em uma
das leis da dialética, não me lembro qual e segundo a qual acúmulos de
quantidade geram saltos de qualidade — noutras palavras, li, estudei,
anotei, pesquisei feito um possesso, crente em que isso, uma hora ou outra, produziria
um curto-circuito geral, que alguma consequência teria. Como em time que está
ganhando não se mexe, este ano de 2026 repito a dose, com um pouco mais de consciência
e expectativa.
Agora, quanto a este ano, não sei o que está sendo e o que
será a seu final. Gostaria de, como no ano passado, escrever algo forte e
abundante. A exemplo de 2025, estou estudando os nossos grandes narradores, e só
saberei o que escrever, se escrever mesmo, ao final do ano letivo, quando somem
do horizonte as metas escolares.
Gostaria, mesmo, de produzir algo bem-humorado, porém não me
preocupo muito com isso. Tenho lido bastante e, caso não haja nenhum evento psíquico
aziago, devo lascar as pontas dos dedos de tanto digitar.
De todo modo, talvez esboce algo, para adiantar não exatamente
o roteiro ou algo parecido, mas para ir adubando a grama em que meus neurônios
vão pastar durante as férias escolares.
Quanto a esse particular, o humor, no entanto, tenho claro,
será positivo; tanto quanto possível, despido de ironia, puxando para o
inocente e ingênuo. Busco um texto fluido, agradável, divertido, porém com
certo nível de complexidade, nada muito “críptico”, ao molho de eventuais jogos
de linguagem, sem resvalar para a prosa poética, embora com pitadas de prosódia
doce e alguma pimenta de segundas intenções.
Acho que evitarei caricatura.
Mentira, as empregarei — porque é impossível deixá-las de
fora de comédias, tanto mais se forem longas —, mas despidas do azedo, que
tantas vezes veste a careta na cara do leitor; e do sal excessivo — que comida
carregada no sal é para bêbados, e meu texto será só para pessoas sóbrias e no
perfeito equilíbrio do numeral 4.
Se eu conseguisse fazer o leitor se dobrar de rir, seria bem-sucedido.
Estou farto dessa literatura que circula hoje, bombada por influencers, macambúzia,
lamurienta, chata nos trinques, no fundo, autocomiserativa, sob o disfarce de busca
de autoconhecimento, autoconsciência, autocontrole (sempre “auto”, jamais “alter”), eternamente
com o dedo apontado para os defeitos do mundo e dos outros, e os olhos voltados
para as profundas do ego — em duas palavras: narcisismo patológico, travestido
de bom-mocismo dodói.
Então acho que meu planejamento para trabalho de escritor de
final de ano de 2026 e início do próximo, 2027, é este: produzir com alegria,
humor e abundantemente uma ficção que faça o leitor se borrar de rir muitas
vezes e, ao término da leitura, fechar o livro com uma flor no coração.
Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.
