Nos meus contos e romances, prefiro reservar ao leitor a
mesma posição ocupada pelo público do teatro e, às vezes, do cinema, mas principalmente
do primeiro, em razão da possibilidade de maior engajamento ativo.
Gosto mesmo de fazer o leitor crer que o narrador se dirige a
ele, leitor, para, em determinado momento, tirar da sombra o verdadeiro
interlocutor do narrador, ocasião em que ele, o leitor, lançado fora da diegese,
flagra o caráter artificioso do “diálogo” do qual, erroneamente, se julgava
parte.
Nem de longe me defendo da acusação de manipulação do leitor
— enquanto elemento da diegese, bem entendido —, porque é exatamente disso que
se trata: numa narrativa ficcional, que é o leitor senão mais uma invenção
pendular (ora interna, ora externa à diegese) do autor e à mercê de seus
desígnios?
Um texto de ficção é um brinquedo, primeiro do autor,
depois, do leitor. Na manufatura desse brinquedo, o autor projeta nele seus
valores, inescapavelmente, mas também sua própria psique. Ora, brinquedo é feito
para divertir — e ser bem-sucedido nessa dimensão é tudo de bom quanto seu
inventor pode aspirar.
Se, por um lado, o brinquedo só funciona caso sua “maquinaria”
esteja perfeita, ele só diverte o “ser brincante” (aqui, o leitor), sob a
condição de este dominar as regras de funcionamento e sentir prazer em seus
efeitos.
Neste ponto, entra em jogo o elemento primordial de todo
brinquedo: o prazer — neste caso específico, o prazer de ler.
Prazeres, há muitos, de diversas naturezas — algumas
perversas — e duração: imediatas, passageiras, duráveis, permanentes... Cabe ao
inventor, aqui cognominado autor, decidir que natureza de prazer quer
proporcionar com seu brinquedo, e que duração deseja que seus efeitos produzam
no espírito do ser brincante, cognominado leitor.
Nesse particular, não ficam de fora dessa lógica sequer as literaturas
descartáveis, as perniciosas e as francamente criminosas, voltadas para a manipulação
não do leitor enquanto elemento simbólico do pacto narrativo, mas de seu
inconsciente, para coisificação, submissão e desestruturação psíquica do
indivíduo subjacente a ele. Este, o indivíduo, convertido em verdadeiro zumbi
cognitivo, está pronto para ser abusado, explorado e descartado — afinal, nem
só de cinema de horror vivem os macabros brinquedos assassinos.
Sim, há no capitalismo mercado para brinquedos assassinos — regido pela lei de oferta e demanda, não por princípios da ética, valores da moral ou apelo aos direitos humanos.
Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.

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