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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

GRANDE SERTÃO: VEREDAS — Tudo em um romance é o próprio autor


Riobaldo, em Grande sertão: veredas, é uma projeção das dúvidas metafísicas do próprio autor, senão vejamos.

No papel de narrador, Riobaldo submete a exame questões basilares da filosofia idealista, tais como:

  • Deus, enquanto criador de tudo e enquanto invenção humana;
  • o mal, enquanto entidade sobrenatural, em si (portanto no singular e em inicial maiúscula: o Mal); ou enquanto resultante de conflitos internos e externos do indivíduo (no primeiro caso psíquicos, no segundo, sociais — em ambos, no plural e com inicial minúscula: os males);
  • ou ainda o papel da dúvida (princípio da incerteza) e da fé (convicção científica ou ideológica) na produção do saber, logo, da consciência.

Não arrisca muito quem considera Riobaldo o principal (porque há outros) alter-ego de Guimarães Rosa nesse romance, que é, a um só tempo, sua obra-prima e seu testamento literário.

Se concordarmos com Jorge Luís Borges, quanto a que a literatura é o sonho acordado do escritor, e se concordarmos ainda com Freud, para quem tudo no sonho é o próprio sonhador, não há como escapar da conclusão necessária daí decorrente, de que, além do alter-ego Riobaldo, no romance em foco todas as demais representações, não apenas as humanas, são emanações conscientes ou inconscientes do autor, cuja ampla e profunda erudição não elidem o fato de seu "sonho acordado" ter sido expresso, palavra a palavra, em um idioma resultante de processos linguísticos multimilenares, que se têm no latim sua origem conhecida mais remota, ecoam idiomas perdidos na origem dos tempos.

Noutras palavras, Guimarães Rosa, em posse integral de "engenho e arte", como qualquer outro falante materno do português, não é senhor exclusivo de todos os sentidos possíveis que seu texto, prodigioso, enseja.

Ao traduzir seu "sonho acordado" em língua portuguesa, o autor empregou signos e processos comuns à comunidade linguística do idioma, signos e processos que, se projetam intenções e mesmo "desintenções" do autor, convocam os repertórios linguístico e cultural dos leitores, cujas referências, constituição e mesmo dimensões são outras.

Por isso, se tudo em Grande sertão: veredas é o próprio autor, inclusive o judas Hermógenes, o leitor é livre para achar o que quiser dessas projeções — liberdade que o idioma comum faculta —, mesmo levando em consideração as não poucas arapucas de linguagem engendradas pelo autor, de que nenhum parágrafo do texto está isento, e nas quais causa mais prazer cair do que evitar.

Porém, nem só de "alter-egos" está constituído esse sertão de sonho, em que as inverossimilhanças, pelo exagero barroco, penetram os domínios do mágico: o romance é prenhe de verdadeiros "alter-ids", em que mesmo perversões abomináveis são descritas com minúcias, afinal, no reino do sonho, a moral é que não faz nenhum sentido — e o episódio de maldade algo demente de Aleixo, "que mata só para ver alguém fazer careta", não repousa aqui em "inocente solitude".

"Ah, vá! Agora Guimarães Rosa saiu do armário e virou o 'S' da antiga sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), leitores machos-alfa dirão da sexualidade ambígua do narrador, o tempo todo prestes a atirar-se nos braços de outro jagunço (Diadorim), "salvo" apenas por seu próprio preconceito. Não dá para afirmar tanto, mas que Riobaldo tinha a libido atiçada pelo jagunço Diadorim muito antes de o descobrir a um só tempo morto e mulher, ah, quem leu o romance com atenção mediana reconhece com os pés nas costas.

Quanto aos "alter-superegos" do autor no romance, basta dizer que todos, exasperados por instaurar sua própria ordem, se deram mal, incluso o bando de Riobaldo, que desbarata a horda dos hermógenes, uma espécie de superego do mal, mas não sobrevive a ela para impor a sua ou uma outra ordem qualquer, uma vez que a vitória militar se esvazia de sentido com a morte de Diadorim, vítima mais da moral preconceituosa vigente (de que Riobaldo, para sua desgraça, era partidário) do que da faca de Hermógenes.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa


Nesta obra prima de João Guimarães Rosa, Riobaldo, jagunço aposentado e fazendeiro de Minas Gerais, às voltas, entre outros, com o dilema da venda da alma para o diabo, passa a limpo a vida de bandoleiro do sertão.

O enredo se desenvolve a partir das memórias desse jagunço que, em perseguição do bando de Hermógenes, assassino do chefe Joca Ramiro, estabelece uma estranha relação de amizade com Diadorim, companheiro de bando cuja beleza o perturba.

Enquanto filosofa acerca da existência ou não do diabo e sobre os mistérios que envolvem a condição da vida em bando, o narrador Riobaldo tenta, por meio das palavras, compreender o que foi sua vida e o significado de sua relação com Diadorim.

A dificuldade para o narrador se apresenta não apenas em razão da natureza imprecisa das palavras, sempre lisas e fugidias para expressar a realidade, a essência dos pensamentos ou dos sentimentos, mas também em razão de as lembranças moverem-se na memória de forma escorregadia, como se se oferecessem ambíguas ao próprio:

“O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que o situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é o dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fecho; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães...”

Acompanhando o hábil narrador, o leitor é levado a perseguir os sentidos das palavras a partir de eventos abertos a todas as “opiniães”, que podem inclusive não se terem dado, a julgar pelo escorregadio da linguagem:

“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfala no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! Não... Quem muito se evita, se convive”.

Afinal, o demo há ou não não há? Existe ou desexiste?

O narrador que passa sua jornada de ex-jagunço em revista é um desconfiado, pois sua vida em bando lhe reservou acontecimentos prodigiosos, entre os quais a revelação da verdadeira natureza de Diadorim, companheiro de armas que, sendo um, era na realidade “outra”.

Além da engenhosidade do enredo, essa obra de Guimarães Rosa alcançou o espaço que ocupa na literatura brasileira graças à linguagem inventada pelo autor, linguagem que articula a um só tempo neologismos e arcaísmos, fala popular e vocabulário culto, subjetividade no relato e precisão descritiva, diálogos secos e sintaxe complexa, entre outros.

Por isso, não se deve ler esse romance com ânsia de se chegar logo ao final. Cada página é como se fosse um verdadeiro poema, tal é o esmero do autor no tratamento das palavras. Não são poucos os trechos que poderiam ser destacados e lidos com prazer como se fossem peças únicas.

Alías, fica aqui a sugestão de que os leitores selecionem trechos dessa obra impressionante para leitura oral e coletiva. Tanto no que diz respeito ao assunto, quanto no que tange à linguagem escorregadia, múltiplas interpretações surgirão seguramente, não se tenha dúvidas: pão ou pães, é questão de opiniães.

FONTE: Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19 ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2001.