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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ENSAIO — Brinquedos assassinos

 

Até hoje, meus narradores sempre estão envolvidos enquanto personagens nos enredos das histórias que contam. A quem o discurso deles se dirige varia, porém nunca eles se destinam diretamente ao leitor, mesmo quando emprego artifícios que identificam o destinatário interno do enredo com o leitor do texto, portanto, em tese, externo a ele.

Nos meus contos e romances, prefiro reservar ao leitor a mesma posição ocupada pelo público do teatro e, às vezes, do cinema, mas principalmente do primeiro, em razão da possibilidade de maior engajamento ativo.

Gosto mesmo de fazer o leitor crer que o narrador se dirige a ele, leitor, para, em determinado momento, tirar da sombra o verdadeiro interlocutor do narrador, ocasião em que ele, o leitor, lançado fora da diegese, flagra o caráter artificioso do “diálogo” do qual, erroneamente, se julgava parte.

Nem de longe me defendo da acusação de manipulação do leitor — enquanto elemento da diegese, bem entendido —, porque é exatamente disso que se trata: numa narrativa ficcional, que é o leitor senão mais uma invenção pendular (ora interna, ora externa à diegese) do autor e à mercê de seus desígnios?

Um texto de ficção é um brinquedo, primeiro do autor, depois, do leitor. Na manufatura desse brinquedo, o autor projeta nele seus valores, inescapavelmente, mas também sua própria psique. Ora, brinquedo é feito para divertir — e ser bem-sucedido nessa dimensão é tudo de bom quanto seu inventor pode aspirar.

Se, por um lado, o brinquedo só funciona caso sua “maquinaria” esteja perfeita, ele só diverte o “ser brincante” (aqui, o leitor), sob a condição de este dominar as regras de funcionamento e sentir prazer em seus efeitos.

Neste ponto, entra em jogo o elemento primordial de todo brinquedo: o prazer — neste caso específico, o prazer de ler.

Prazeres, há muitos, de diversas naturezas — algumas perversas — e duração: imediatas, passageiras, duráveis, permanentes... Cabe ao inventor, aqui cognominado autor, decidir que natureza de prazer quer proporcionar com seu brinquedo, e que duração deseja que seus efeitos produzam no espírito do ser brincante, cognominado leitor.

Nesse particular, não ficam de fora dessa lógica sequer as literaturas descartáveis, as perniciosas e as francamente criminosas, voltadas para a manipulação não do leitor enquanto elemento simbólico do pacto narrativo, mas do inconsciente dele enquanto indivíduo, para coisificação, submissão e desestruturação sua psique. Convertido o indivíduo em verdadeiro zumbi cognitivo, ele está pronto para ser abusado, explorado e descartado — afinal, nem só de cinema de horror vivem os macabros brinquedos assassinos.

Sim, há no capitalismo mercado para brinquedos assassinos — regido pela lei de oferta e demanda, não por princípios da ética, valores da moral ou apelo aos direitos humanos.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

GRANDE SERTÃO: VEREDAS — Tudo em um romance é o próprio autor


Riobaldo, em Grande sertão: veredas, é uma projeção das dúvidas metafísicas do próprio autor, senão vejamos.

No papel de narrador, Riobaldo submete a exame questões basilares da filosofia idealista, tais como:

  • Deus, enquanto criador de tudo e enquanto invenção humana;
  • o mal, enquanto entidade sobrenatural, em si (portanto no singular e em inicial maiúscula: o Mal); ou enquanto resultante de conflitos internos e externos do indivíduo (no primeiro caso psíquicos, no segundo, sociais — em ambos, no plural e com inicial minúscula: os males);
  • ou ainda o papel da dúvida (princípio da incerteza) e da fé (convicção científica ou ideológica) na produção do saber, logo, da consciência.

Não arrisca muito quem considera Riobaldo o principal (porque há outros) alter-ego de Guimarães Rosa nesse romance, que é, a um só tempo, sua obra-prima e seu testamento literário.

Se concordarmos com Jorge Luís Borges, quanto a que a literatura é o sonho acordado do escritor, e se concordarmos ainda com Freud, para quem tudo no sonho é o próprio sonhador, não há como escapar da conclusão necessária daí decorrente, de que, além do alter-ego Riobaldo, no romance em foco todas as demais representações, não apenas as humanas, são emanações conscientes ou inconscientes do autor, cuja ampla e profunda erudição não elidem o fato de seu "sonho acordado" ter sido expresso, palavra a palavra, em um idioma resultante de processos linguísticos multimilenares, que se têm no latim sua origem conhecida mais remota, ecoam idiomas perdidos na origem dos tempos.

Noutras palavras, Guimarães Rosa, em posse integral de "engenho e arte", como qualquer outro falante materno do português, não é senhor exclusivo de todos os sentidos possíveis que seu texto, prodigioso, enseja.

Ao traduzir seu "sonho acordado" em língua portuguesa, o autor empregou signos e processos comuns à comunidade linguística do idioma, signos e processos que, se projetam intenções e mesmo "desintenções" do autor, convocam os repertórios linguístico e cultural dos leitores, cujas referências, constituição e mesmo dimensões são outras.

Por isso, se tudo em Grande sertão: veredas é o próprio autor, inclusive o judas Hermógenes, o leitor é livre para achar o que quiser dessas projeções — liberdade que o idioma comum faculta —, mesmo levando em consideração as não poucas arapucas de linguagem engendradas pelo autor, de que nenhum parágrafo do texto está isento, e nas quais causa mais prazer cair do que evitar.

Porém, nem só de "alter-egos" está constituído esse sertão de sonho, em que as inverossimilhanças, pelo exagero barroco, penetram os domínios do mágico: o romance é prenhe de verdadeiros "alter-ids", em que mesmo perversões abomináveis são descritas com minúcias, afinal, no reino do sonho, a moral é que não faz nenhum sentido — e o episódio de maldade algo demente de Aleixo, "que mata só para ver alguém fazer careta", não repousa aqui em "inocente solitude".

"Ah, vá! Agora Guimarães Rosa saiu do armário e virou o 'S' da antiga sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), leitores machos-alfa dirão da sexualidade ambígua do narrador, o tempo todo prestes a atirar-se nos braços de outro jagunço (Diadorim), "salvo" apenas por seu próprio preconceito. Não dá para afirmar tanto, mas que Riobaldo tinha a libido atiçada pelo jagunço Diadorim muito antes de o descobrir a um só tempo morto e mulher, ah, quem leu o romance com atenção mediana reconhece com os pés nas costas.

Quanto aos "alter-superegos" do autor no romance, basta dizer que todos, exasperados por instaurar sua própria ordem, se deram mal, incluso o bando de Riobaldo, que desbarata a horda dos hermógenes, uma espécie de superego do mal, mas não sobrevive a ela para impor a sua ou uma outra ordem qualquer, uma vez que a vitória militar se esvazia de sentido com a morte de Diadorim, vítima mais da moral preconceituosa vigente (de que Riobaldo, para sua desgraça, era partidário) do que da faca de Hermógenes.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem). Atualmente é professor na Rocinha, Rio de Janeiro.