segunda-feira, 7 de setembro de 2026

CRÔNICAS CARIOCAS — Louco sob a chuva

 

Outro dia, tomava um chope num estabelecimento do largo do Machado amplamente invejado pela Receita Federal e agora, segundo notícias recentes, também pela Saúde Pública. Bebia só, por princípio, mas também porque era um final de tarde de uma sexta-feira escaldante de um final de agosto, mês de má fama, cujo término merece, por isso mesmo, ser comemorado em silêncio compungido.

A garçonete ficou intrigada por ser canhota e precisar fazer malabarismos com o caderno, na época de escola, para escrever, enquanto eu deitava letras redondas alucinadamente no papel, como um possesso, mantendo a folha alinhada com as margens da mesa e a escrita sem a menor inclinação.

          — Não sou canhoto, sou destro. Aprendi a escrever com a esquerda para manter livre a direita: o copo de chope, sabe...

Ela sorriu, e eu paguei na mesma moeda.

          — Ah, vá! — ela duvidou, se divertindo com a anedota.

Passei, então, a caneta para a mão direita, o chope para a esquerda, e continuei o exercício de caligrafia, pois disso era que se tratava, e ela se afastou com horror, sem voltar as costas. Pela leitura labial, vi que ela pedia ao colega para que ele passasse a me atender, porque eu não era muito certo das ideias.

Semanas depois, num final de domingo chuvoso de setembro, em outro estabelecimento da área de bares e restaurantes, agora do Catete, porém de reputação equivalente à do anterior, caprichava eu no exercício de caligrafia para a mão esquerda, em meio a uma partida de futebol na TV, quando me cutuca o braço um garçom de baixa estatura, porém certamente saído de uma academia de musculação, haja vista seus bíceps, tríceps e torácicos de titã. Confiando em sua intuição, ele, cujo nome grego preservo em respeito ao segredo de fonte — melhor seria que fosse Hércules, mas não era — tinha um livro em mente e não sabia como começar, quem sabe eu pudesse ajudar...

Pensei rápido, enquanto o Flamengo perdia mais um gol, debaixo de um dilúvio que Deus mandava e ondas de xingamentos dos ocupantes das outras mesas: vou atender esse rapaz, por três motivos:

Primeiro: tinha músculos demais para eu arriscar uma negativa — a gente tem que ser previdente; segundo: não é todo dia que um garçom com esse shape quer desenvolver os tecidos do sistema nervoso central — a gente tem que incentivar o mens sana in corpore sano; terceiro: ele não me achou pancada — a gente tem que dar valor a quem se reconhece em nossas loucuras.

Passei-lhe o contato, mas não esperei que o jogo terminasse, paguei a conta e enfrentei o dilúvio com o caderno protegido pelo casaco.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).

8 comentários:

  1. Jeosafá, obrigado por essa bela crônica. Um excelente feriado para você. Um grande abraço.

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  2. Parabéns, gostei , bela crônica,
    descreve bem tardes/noite da boemia carioca.

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  3. Legal, Jeosafá, ótimas crônicas cariocas! Muito bom manter seu blog vivo. Só uma pergunta: e o futuro colega, com um livro na cabeça, já entrou em contato?

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    1. Ainda não, João. Espero que ele leve adiante o impulso tresloucado 🤣

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  4. Leitura deliciosa para o fim de tarde. Parabéns, Jeosafá!

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