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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CRÔNICAS CARIOCAS — Morangos sempre frescos, porém mornos

 

Ano passado estudei nossos grandes narradores do século 20, entre os quais Lygia Fagundes Telles, Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles cronista, Marina Colasanti, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Luís Fernando Veríssimo etc., e muita fortuna crítica e vídeos relacionados a eles, mas também biografias, pois não é preciso ser bidu para saber que contexto também faz parte do texto.

Porém ficou um buraco no meu planejamento, pois Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, estava listado, e ficou a ver navios. A história desse naufrágio com final feliz conto a seguir.

Encomendei em um sebo virtual famoso uma primeira edição, de 1982, a mesma que eu lera no início da juventude e cujo exemplar se perdeu em meio às muitas mudanças de residência que me acometeram mais do que eu desejaria ao longo da vida. Embora haja edições novas, eu preferia aquela que eu comprei na livraria Brasiliense, que ficava na rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, e que foi para as cucuias junto com a editora.

Alegre e pimpão com a aquisição, ia matar a saudade não só do autor, como também da edição — e ainda feliz da vida com o preço, pois um bom exemplar desses chega fácil aos seus cento e cinquenta reais, e eu conseguira, já com frete incluído, a bagatela de quarenta e qualquer coisa.

Quando a esmola é demais, o santo desconfia, dizia minha mãe, cujos conselhos eu demorei demais da conta a levar a sério.

O livro não chegava, reclamei. Demorou uns dias, o vendedor respondeu: algum problema tinha acontecido e ele ia devolver o dinheiro, o que fez religiosamente. Mas eu não queria meu dinheiro de volta, queria o exemplar comprado. Não teve jeito, fiquei a ver navios e morangos à deriva junto com Caio Fernando Abreu. Tenho comigo que o vendedor se arrependeu do preço e desfez a venda, para remarcá-lo para cima.

Quer saber? — pensei, olhando a pilha de romances e volumes de narrativas curtas a minha espera — no final do ano volto ao Caio, e descubro uma edição velha e boa, mas não a preço de colecionador.

Porém entrou dezembro e eu, após vencer o planejamento de leitura com galhardia, tive um pirepaque, e desandei, já no dia dois desse último mês do ano, a escrever compulsivamente um romance.

Não tinha planejado isso, mas, trabalhando como um possesso, só parando para comer, dormir e encerrar o ano letivo na Rocinha — que me despendia quatro horas nos dias úteis —, cheguei no dia vinte e três ao ponto final do texto. O restante de dezembro e o mês de janeiro empreguei relendo e reouvindo o texto ad nauseam, ajustando linguagem e conteúdo, capítulo por capítulo, linha a linha palavra a palavra, vírgula a vírgula, como um maníaco.

Com esse acidente não previsto, já estava quase esquecendo dos Morangos sempre frescos do Caio, mas eles não se esqueceram de mim.

Os dias finais de janeiro e início de fevereiro gastei fazendo faxina e pequenos consertos no apartamento, o que me levou várias vezes às casas de materiais elétricos e de construção da região do Catete e Flamengo.

Precisado de uma mola e um parafuso, peregrinei um bocado, inutilmente, o que me levou à velha prática do improviso para fazer uma fechadura funcionar.

Voltando de uma dessas peregrinações, o que está exposto na mureta da saída de ar da estação Largo do Machado do metrô, esquina com a rua Machado de Assis?

Uma edição de 1987 de Morangos Mofados muito bem conservada. Perguntei ao jornaleiro ao lado se era ele quem atendia. Não era, era uma mulher que dormia sob papelões, com uma outra parceira sua e um cão, logo atrás da saída de ar. Estavam todos dormindo. Ele foi até ela e a acordou.

Quanto ela pediu? Dez reais, em dinheiro — Miséria! Eu não tinha!

Pedi que ela reservasse o exemplar, que eu ia apanhar o dinheiro. Ela sorriu sem dente nenhum na boca, levou-o para seu colchão sob os papelões e falou que era só acordá-la quando eu voltasse com o dinheiro.

Corri até o apartamento, juntei uma nota de cinco e cinco moedas de um real, e voei para meus Morangos predestinados, desconfiado de que eu estava abusando da sorte.

Mas deu tudo certo.

Acordei a moça que, sendo mais nova do que eu, tinha aparência de minha avó. Paguei, ela sorriu e me pôs em mãos o livro morno, não sei se do calor da saída de ar quente do metrô, se do abrigo improvisado em que ela morava, e no qual dormiam, além dela, dois outros membros da família, se do meu coração.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).

domingo, 29 de setembro de 2024

CRÔNICAS CARIOCAS — Bandeira de volta ao largo do Boticário

Vez por outra entro nas redes sociais para saber se o mundo já acabou. Não sei por que insisto nessa prática, uma vez que a dúvida é ociosa. Sim, o nosso mundo já acabou e as outras formas de vida habitantes do planeta apenas se perguntam quando é que faremos as malas, tomaremos naves espaciais sem bilhete de volta e os deixaremos em paz, para que reiniciem o mundo a partir do ponto estragado da evolução das espécies em que os deixamos.

Numa dessas redes sociais em que me afundo no prazer mórbido de gozar o Armagedom, li uma postagem cheia de coloridos e letras apelativas que trazia uma mulher jovem, bonita, de óculos, a sorrir e oferecer “10 dicas de novos livros para ler”. Achei a oferta suspeita, pela simples razão de não haver razão para uma publicidade, das profundezas do fim de tudo, oferecer “de graça” cordas pelas quais se subir e escapar ao limbo. Desliguei o celular enfarado com a constatação de que o fim ainda estava no prefácio e fui fazer o que vinha planejando havia muito.

Era sábado, um fim de tarde fosco, não obstante setembro e início de primavera, com um vento fazendo o ar circular agradavelmente, e algumas gotículas erráticas, de vez em quando, picando a pele da face. Se chovesse, ora, nem isso, se garoasse ou mesmo chuviscasse aqueles chuviscos que nem compensa abrir o guarda-chuva, que eu não trazia comigo, teria que me abrigar em algum canto, pois a minha velha antologia Estrela da vida inteira, de Manuel Bandeira, não suportaria mais essa desfaçatez, das tantas a que a tenho submetido nos últimos anos.

Não choveu, nem garoou, sequer chuviscou. Só essas gotículas brincalhonas me acompanharam na caminhada do largo do Machado, pelas ruas das Laranjeiras e Cosme Velho, até o alto do largo do Boticário, onde Manuel Bandeira se deixara fotografar pela extinta revista O Cruzeiro — foto que consta da edição que levava comigo, cuja capa estava protegida canhestramente por um plástico filme, desses que se usam na cozinha.

As gotículas erráticas tiveram um efeito maravilhoso, que foi o de esvaziar as ruas, onde poucos carros circulavam e menos gente ainda. Exceto por um homem  que levava seus três cães pelas respectivas guias e seu ego sem a sua, e que para se fazer notar trancou o passeio por torturantes longos instantes na tarde vazia  a caminhada só se interrompeu nos semáforos.

Em pouco mais de trinta minutos estava eu lá, no exato ponto em que Bandeira tivera sua imagem fixada em preto e branco, já idoso, em calças escuras e paletó claro refletindo o sol forte, a cabeça baixa atenta ao piso irregular, a caminhar pelo calçamento de pedras mal cortadas do leito da rua do beco de acesso ao largo.

Não só o piso do leito da rua como o das calçadas e mesmo as fachadas pareciam os mesmos da foto, com ligeiras alterações. Só o poeta estava ausente, até eu abrir a antologia na página respectiva e uma agradável sensação de pertencimento circular por meus nervos como uma onda morna de felicidade.

Visitei o largo do Boticário com a pretensão (ó alma vaidosa!) de restituir — ao menos durante a minha permanência no local — o poeta, sua antologia em mãos, a um de seus espaços mais caros.

Porém, escrevendo esta crônica, me dei conta da sutileza do poeta: foi ele quem me levou pela mão até lá, e, verdade seja dita, foi também ele quem me deixou, meses antes, à porta do edifício em que morou por último, na avenida Beira-Mar. 

Placa no edifício São Miguel, na avenida Beira-Mar,
bairro do Castelo, Centro do Rio.
Nesse edifício São Miguel, Bandeira morou primeiro nos fundos, que dava para o beco que servia de lixão, que ele registrou no poema O bicho:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Rio, 27 de dezembro de 1947

Depois, Bandeira mudou-se para um apartamento de frente do São Miguel, cuja fachada dá para o aeroporto Santos Dumont, que ele registrou no poema Lua Nova, datado de agosto de 1953, constante do livro Opus 10 e da antologia Estrela da vida inteira, que eu trazia comigo:

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.

Bandeira me levou pela mão, aos vinte anos, à sua poesia, e agora, aos sessenta anos de juventude, a esses seus lugares sagrados. Porém há ainda um roteiro extenso que ele percorreu no Rio e que me falta cumprir. Próxima parada, Santa Teresa, onde ele morou na rua do Curvelo, hoje Dias de Barros, e onde escreveu textos clássicos como os Poema do Beco, Primeira Canção do Beco, Segunda Canção do Beco e Última Canção do Beco.

Sem pressa, vou ao roteiro, me metendo pelos becos cariocas da literatura, onde o mundo ainda não acabou e talvez esteja só começando.

Evoé, Manuel Bandeira

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP Pós-Doutor em e História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Hoje professor da rede pública estadual do Rio de Janeiro, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).