A garçonete ficou intrigada por ser canhota e precisar fazer
malabarismos com o caderno, na época de escola, para escrever, enquanto eu
deitava letras redondas alucinadamente no papel, como um possesso, mantendo a
folha alinhada com as margens da mesa e a escrita sem a menor inclinação.
— Não sou canhoto, sou destro. Aprendi a escrever com a esquerda para manter livre a direita: o copo de chope, sabe...
Ela sorriu, e eu paguei na mesma moeda.
— Ah, vá! — ela duvidou, se divertindo com a anedota.
Passei, então, a caneta para a mão direita, o chope para a
esquerda, e continuei o exercício de caligrafia, pois disso era que se tratava,
e ela se afastou com horror, sem voltar as costas. Pela leitura labial, vi que
ela pedia ao colega para que ele passasse a me atender, porque eu não era muito
certo das ideias.
Semanas depois, num final de domingo chuvoso de
setembro, em outro estabelecimento da área de bares e restaurantes, agora do
Catete, porém de reputação equivalente à do anterior, caprichava eu no exercício
de caligrafia para a mão esquerda, em meio a uma partida de futebol na TV, quando
me cutuca o braço um garçom de baixa estatura, porém certamente saído de uma
academia de musculação, haja vista seus bíceps, tríceps e torácicos de titã. Confiando
em sua intuição, ele, cujo nome grego preservo em respeito ao segredo de fonte
— melhor seria que fosse Hércules, mas não era — tinha um livro em mente e não
sabia como começar, quem sabe eu pudesse ajudar...
Pensei rápido, enquanto o Flamengo perdia mais um gol,
debaixo de um dilúvio que Deus mandava e ondas de xingamentos dos ocupantes das outras mesas: vou atender esse rapaz, por três motivos:
Primeiro: tinha músculos demais para eu arriscar uma
negativa — a gente tem que ser previdente; segundo: não é todo dia que um garçom
com esse shape quer desenvolver os tecidos do sistema nervoso central —
a gente tem que incentivar o mens sana in corpore sano; terceiro: ele
não me achou pancada — a gente tem que dar valor a quem se reconhece em nossas
loucuras.
Passei-lhe o contato, mas não esperei que o jogo terminasse, paguei
a conta e enfrentei o dilúvio com o caderno protegido pelo casaco.
Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor daFundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQ, A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).
