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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Pra cima de moá, não, João!

João Luiz Marques, escritor.
Emprestar referências da vida real para compor ficção não chega a ser novidade, e alguns clowns medievais, conta a lenda, perderam mesmo a cabeça, literalmente, ao exagerarem na caricatura em que um rei ou nobre se sentiu identificado.

João Marques pode ficar tranquilo com sua cabeça em cima do pescoço, pois alguns personagens aos quais ele deu vida em seu Os caçadores do livro encantado refletem-se com amizade nas pessoas da vida real nas quais ele se inspirou.

Noutras palavras, ninguém que se sentir identificado lhe cobrará satisfações, seja em termos de corda, guilhotina ou outros meios mais modernos.

Em seu elenco de personagens desse livro, reconheci três: Plínio, Touchê e João Gabriel. Desses, convivi com dois, Plínio (Mesquita de Camargo), amigo antigo, poeta e escritor, e João Gabriel, diretor do sindicato dos Bibliotecários, que conheci nas lutas pela democratização do mundo do livro.

O Touchê, vulgo Antônio Carlos Lucena, conheci de livro, Jujubas essenciais, e de fama, quando, militante do cineclube Bixiga, na década de 1980, rodei pelas mesmas ruas em que ele afixou seus poemas em postes.


O livro do João Marques é para os dias de hoje, mas ninguém se engane com artifícios, mumunhas, malandragens e contrabandos literários de que ele se valeu sub-repticiamente para despertar em adolescentes atuais os sentimentos de amor pelo livro, de jovens de outros tempos.

O protagonista Le, em busca de sua história, arrasta seus amigos por um enredo que ecoa os anos 1970 e 1980, com sua poesia marginal e seus autores líricos, irônicos e humorados, com um pé na revolução e outro no sarcasmo.

O João Marques é um esperto, pois em uma trama aparentemente inocente, faz desfilar ante os olhos do leitor adolescente dos anos 2020 uma trupe para lá de suspeita — para as forças da lei do final da ditadura militar: Ana Cristina César, Paulo Leminski, Vera Pedrosa, Ulisses Tavares, Chacal, Cacaso.

Quem tiver esse livro inocente em mãos, não se engane, é cupincha, ou no mínimo suspeito ou "inocente útil", do lema da época, lapidado por Hélio Oiticica: “Seja Marginal, seja herói.”

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP e Pós-Doutor em História pela mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais Carolina Maria de Jesus: uma biografia romanceada, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria); O espelho de Machado de Assis em HQA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).